terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Memórias

Hoje me falta o natal
com as tintas da infância
para pincelar os meus sonhos

meu desejo era pendurado
numa arvore para compor a fantasia
iluminado pelas estrelas
amanhecia concreto para minha alegria

porque natal
era tão simples e colorido
naqueles dias...


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal

XIV

26/12/03


... nessa manhã amena, a felicidade está no trabalho que escraviza; o orgulho, na marmita cheia, porém possível apenas por duas breves horas de descanso e piada: arroz, feijão e quem sabe um bife...


... nessa manhã amena, Cristo está no estômago, fermentando em meio à hóstia mastigada ontem; amanhã, estará ele rodando no córrego do matadouro, em um curso que, dificilmente, encontrará o mar...


... nessa manhã amena, com ordem de supervisor, enxada, arroz com feijão, dai-nos sempre, senhores, essas duas boas horas de descanso e arroz com feijão, amém...


*

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Noitezinha mixuruca

Coloquei a mochila nas costas e deixei o telefone tocando, eu que não atenderia aquela porra bem na hora do meu passeio.

Sete da noite. No quintal fiquei olhando pra rua, a poeira levantada no asfalto sujo. Debruçado no muro, qual namoradinha do século passado. A campainha continuava seu grito desesperado lá dentro de casa, por isso saí de vez. Ganhei a rua, um cachorro preto me seguiu, ficou me cheirando até eu resolver dar um chute nele.

Peguei um ônibus pro centro, fiquei olhando o movimento das ruas aos poucos ir diminuindo. Sete e meia.

Parei no Cais de Santa Rita, os bares vagabundos funcionando. Sentei numa mesa, pedi uma garrafa de carreteiro, uma porção de fígado de alemão, coloquei meus amigos (uma carteira de derby, um isqueiro e a minha mochila) em cima da mesa e fiquei olhando pra eles, ouvindo kelvis duran, que a dona do barzinho havia posto no devedê.

Enxugava a garrafa, as quenguinhas passavam, mil sorrisos vazios.

Sentar sozinho num bar de filhos da puta, fumar cigarros de merda e beber vinho ordinário. Esperava por Deus, que havia de me abençoar.

- Olá, disse uma mulher, sentando à minha mesa. Morena, olhos negros de cão, lábios vermelhos, uma cicatriz na sobrancelha esquerda, grandes peitos moles saindo de uma blusa preta, apertada.

- Olá, respondi sorrindo.

- Esperando alguém?

- Sim.

- Quer que vá embora?

- Não, fica, estou esperando alguém que não virá.

Pedi mais um copo à dona do bar.

- Ah, que eu quero um pouquinho de vinho também, ela disse.

Ficamos ali calados por um tempo. Eu olhava o cenário à minha volta, algumas pessoas dançavam ao ar livre. Do outro lado da grade, uns poucos otários esperavam ônibus no terminal do Cais.

- Você não fala muito né?

- Não.

- Vem dançar, ela disse, se levantando. Tinha uma bunda grande, realmente grande, a calça jeans apertada.

- Não, prefiro observar você, ofereci meu sorriso mais simpático.

Ela ficou lá, rebolando, olhando pra mim com a cara da puta que ela era. O brega. Chegou um cara e a abraçou. Ficaram se esfregando. Terminei a garrafa, o gosto doce na boca, levantei, aplaudi os dois, fui até a dona e paguei minha conta, depois voltei até a morena e coloquei dez reais no decote dela.

- Obrigado pela companhia.

Oito e trinta e cinco. Caminhei em direção à ponte Maurício de Nassau, estaquei num poste e dei uma mijada deliciosamente reconfortante.

Continuei pela ponte, parei na estátua do poeta Joaquim Cardozo, ele sempre saudando quem passa pelaquela merda. O rio era a coisa mais negra que podia existir nessa cidade àquela hora. Um cara jogava tarrafa, fiquei olhando ele trabalhar, acendi um cigarro.

Um mendigo parou do meu lado, ficou falando um monte de maluquice. Estávamos eu e Joaquim observando o outro cara pescar. O mendigo falava qualquer coisa, mostrando uma garrafa de fanta vazia pra mim. Puxei uma moeda do bolso. Cinquenta centavos, ele devia estar com sorte. Estendi pra ele e ele foi embora. Nove horas. Também segui meu rumo.

Fiquei zanzando pelo recife antigo. Dei uma parada no Burburinho, tava rolando um Queen no som.

Cerveja cara, posso pagar no cartão?

Gente bonita e descolada. Deus havia de me abençoar.

Um cabeludo passou pela minha mesa.

- Opa, ele disse.

- Opa.

Era poeta, me ofereceu seus livros.

- Porra, velho, poesia não. Poesia é perda de tempo.

Assentiu com a cabeça e foi embora. Que tipo de escritor era ele?

Metade da carteira de cigarro, eu que já devia estar ficando louco por passar horas e horas sozinho, olhando os outros fazerem diversão de suas vidas noite a dentro. Ninguém mais parou na minha mesa, graças a Deus.

Puxei o caderno da mochila, alto de uma garrafa de carreteiro e seis cervejas geladas, e tentei cometer uma poesia também. O céu era um lilás fino, de poucas nuvens, o velhinho garçom disse: – Vamos fechar já já. Quatro e meia. Nem tinha visto o tempo passar.

Não cometi poema nenhum, nem porra nenhuma. Era melhor assim.

Terminei de amanhecer meu dia no marco zero, vomitando no mar. Uma das cenas mais bonitas que alguém pode viver.

Depois de vomitar, senti finalmente o baque do álcool na cabeça. Precisava de uma cama.

Já era dia quando resolvi voltar pra casa. Caminhei de volta pro Cais, todos os mendigos estavam estendidos no chão. Os carros já começavam seu movimento. Outro dia de trabalho. Grande sorte a de todos os trabalhadores.

No Cais, do outro lado da grade. Mais um otário à espera do ônibus. A morena ainda dançava no bar, completamente bêbada. Tinha outro cara agarrado nela. Me viu, sorriu e acenou. Respondi. Gente fina ela.

O ônibus veio vazio, fiquei cochilando, pescando sono até chegar no meu bairro, com suas ruas amareladas e fedendo a merda, como todo subúrbio do Recife, abençoados sejam todos os subúrbios do Recife. Um cachorro ficou me cheirando até eu entrar pelo portão de casa.

Abri a porta, calma total, vontade de mijar de novo, um sono filho da puta. Voltei do banheiro, sentei no sofá, olhei pro teto e deitei. Noitezinha mixuruca. Já começava a dormir, o telefone se pôs a tocar. Puta que pariu. Cobri a cabeça com uma almofada e dormi tão profundamente que voltei a sonhar, coisa que não acontecia comigo já havia algum tempo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Esperança


um dia, acendo-me
no fogo de tuas carnes
a meia luz
de uma estrela.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Romaria

os miséraveis da fé
nesse caminho de urtiga
crava esperança no peito
dando ao gesso frio da estátua
vida...

são palavras debulhadas
no bafo da oração
como leite na pedra
escorre a procissão

nossa senhora
a mãe das dores
escuta as súplicas
do seu andor

sábado, 28 de novembro de 2009

REVELAÇÃO


Neste momento
a ponta de meus dedos
comanda a mente.

Esta areia que de mim escorre
derrama mágoas,
ri,
esculpe castelos e seus calabouços,
trapaceia,
confessa segredos.

Minhas palavras são disformes,
movediças,
vazam das paredes,
derramam-se do teto,
escondem-se em minhas mãos
codificadas em impulsos elétricos.

E é no meu escuro que dançam,
tomam forma de luz,
de frases que brilham
em papéis timbrados com tinta fluorescente
e desta fotografia que me atormenta
pedindo revelação.

(Celso Mendes)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Planos de Vôo

imagem de Hugo Martins



1 – os motivos

Sempre haverá um rompimento

ou discussão envenenada.

Por um momento, bem sabemos,

motivo é o que menos há.


Sempre haverá uma dor de perda

que só se perdendo para esquecê-la.

E há, sempre há, motivo obscuro

nunca suposto, jamais revelado.


Sempre haverá demissão inesperada,

concepção indesejada, inoportuna,

surgida em hora ingrata pela mão de sujeito

sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.


(Nenhum que justifique ou que explique)


2 – a forma


É público, porém limpo –

outros verão o espetáculo,

não aqueles de apreço.


(Em casa, o sangue manchará

cortinas, desvalorizará o imóvel.)


É público, porém limpo –

outros verão o show, serão

aqueles que por um ou dois dias

deixarão de dormir,

beberão café em excesso,

terão um cigarro queimando os dedos.


Serão aqueles que esquecerão logo,

que comentarão via telefone,

especularão pela mãe – pobrezinha! –

e levarão o episódio às manicures.


É público, porém limpo.

Logo a ambulância fará o seu serviço

e a chuva ou as varredeiras, o seu.


(Em casa, o sangue entupirá

o ralo e excitará o cão.)


3 – o viaduto

a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.

Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.


b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.


Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.


E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.


4 – a rota

Nenhum semáforo que avermelhe

ou placa de trânsito que obrigue


(O sol

projetando a sombra)


Caminho pouco imaginativo

de paisagem em baixa resolução


(O vento

desmanchando o penteado)


5 – instante


Último pensamento

incapaz de ser compartilhado

pela brutalidade do pouso:

nada é mais belo que o pôr-do-sol

dourando as bordas do abismo.



*

domingo, 8 de novembro de 2009

Ponto de Repouso

Marmóreo o meu leito? Ainda não.
Me esbaldo em colchões mais resilientes
Das gentes com quem vivo, da razão
Que cerca o que creio, ainda que descrente.

Gelado o meu repouso? Nem por nada
A vida não me é clemente, mas é mestra
E nessa mescla de viver e ser vivido
Sempre presto atenção no arranjo e notas

Que notas em mim, portanto és cúmplice
Cumpriste tua parte e eu a minha
Com um pé na sala, outro na platéia da ladainha
Sempre uma Eurídice silente.

Epicuro não me faz de si discípulo
Escapulo dessa ratoeira tola
Mas a essência do que vivo, essa mola
Me arremessa a distância respeitável.

Serei memorado, não memorável,
Serei lembrado por algumas coisas poucas
Nem lembráveis pelo que tinham de instável
Nem marcantes, pois nem eram assim loucas

E retorno a um leito, não repouso
Não o seria só por ser aonde pouso
Mas um plano, um equilíbrio intermediário
Onde escrevo, letra a letra, o meu diário.

Rota do Ninho

Eu tenho que buscar meu horizonte
Ainda que esse norte me aniquile
E fale o que eu não disse, me desminta
E sinta o que eu sinto, e mais um pouco.

E tenho que buscar meu bardo e louco
Em versos ou em atos, inda mais nesses
Que preces sempre inúteis logram pouco
Para o ouvido mouco, e te parece

Querer ouvir meus gritos, sempre longe,
A ira de um monge infernizado.
Quem sabe em insanidade e arroubos
Por fim te lograria a meu lado.

Eu tenho que buscar esse meu centro impossível
O lúcido e improvável descaminho
Que me ponha de volta à rota do ninho
Que me saiba enfim, pronto ao falível,
Mas pronto a dar a cara p’ra porrada.
E me oferte, enfim, ou tudo ou nada.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Subreal

Escrever um poema catarse,
rasgar, com pena de aço,
a pele fina do lado
de dentro do braço.
Escrever um poema vermelho:
copiar em sangue e pus
a imagem no espelho
de olhos de cão andaluz.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ensaio Para um Vôo Cego


ENSAIO PARA UM VÔO CEGO

Estanca esta minha reza antes que eu confesse
meus dissimulados tempos de angústia incrustada,
forjada secretamente com palavras mudas entre risos breves,
olhares distantes e meias verdades.

O amargo que exalo da língua é a minha defesa
e a lança que aponto em teu peito me fere na alma.

Não deixa que eu diga o que sinto,
que eu sinta o que penso,
que eu pense que sei já saber ser vodu de mim mesmo.

Pois hoje eu queria fazer um poema cortante,
que sangre, que vaze dos olhos, que verta o veneno.
Por isso preparo um altar para o sacrifício:
que o doce lirismo se queime na verve maldita
e o olho dos ventos me arranque essa pele de santo.

Devolva-me cada delírio e meus sonhos alados,
vomita esses meus pedaços que já mastigaste,
retira de minhas entranhas as tuas matizes

e impeça este meu ensaio de um vôo ao inferno.

(Celso Mendes)

domingo, 25 de outubro de 2009

Estúdio Raposa


Meus camaradas, alguns de meus poemas podem ser ouvidos na voz de Luis Gaspar, no audioblog português Estúdio Raposa. Feliz demais ao ouvir meus poemas, me deu um ânimo novo em ler, ler e produzir. Só tenho a agradecer a Luis Gaspar por esse presente! Um abraço a todos!

*

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sonhei para trás...

Te ofertar um momento. Feito de chão de cimento em paulistânia desfrutável. Um momento agradável. Subimos a Nove de Julho, caminho do centro, em um Simca, DKW, Bel Air ou fusquinha, tanto faz, à busca de um bar ou restaurante, de uma casa de chá que ainda há, apenas depende da hora. Vamos embora.

Um filme no Metro ou no Comodoro. Cinerama, ah aí acende-se a chama, no espetáculo tecnológico das três imagens mal emendadas formando os cento e oitenta graus. Na saída, cuidado com os degraus, seu salto alto pode se enroscar no bisel, mas eu te apoio.

No cinema, selos roubados. Não há motéis, apenas cuidados para assistir corridas de submarinos no lago do Ibirapuera ou ver a cidade do morro do Morumbi. Essa cidade eu já vi.

Um drink em algum lugar. Qualquer um, afinal a cidade é um lar. Pode ser um Chopp em um alemão da Zona Sul, pode ser um Martini em um hotel do centro, mas não ficaremos lá dentro. Tudo nos convida e nada nos recebe amantes. Somos apenas instantes.

Te levo para dançar ou conversar em qualquer piano bar, onde se pode compartilhar uns beijos mais um pouquinho ousados. Afinal, de ambos os lados casais estão se beijando. E a cidade pulsando como nunca deixou de pulsar.

Nosso encontro, ou intercurso? Deixo a vez para tua criatividade. Afinal, estou falando da cidade onde se roia, displicente, a ponta do pão deixado em porta de casa de outra gente. O fino do fino da madrugada. E a gente lá, gravata desapertada, teu soutien já inútil, saltos altos no chão do carro ou nas mãos, ou ainda esquecido sobre um banco com vista para o lago do parque. A lua, ou ao menos algumas luzes brancas, criando reflexos, fazendo reféns da minha memória e da tua.

Ok. Sonhei para trás. Daqui para a frente, como é que a gente faz?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Baleado

Quando chegava em casa cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas

Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Picadeiro

De frente pra platéia,
o cara equilibra rimas,
joga palavras pra cima
como quem faz malabarismo
com três motosserras ligadas
e seis granadas sem pino,
mas sabe que o público espera
é só pra ver se ele erra.
Só isso e mais nada.

domingo, 18 de outubro de 2009

Composição efêmera

Me ocorre uma melodia
Entre Bach e Pixinguinha
Ela chega bem baixinha
E se instala onde está.

Me ocorre essa melodia
Não uma sinfonia
Entre Pixinguinha e Bach
Uma Bachiana modesta
Que presta.

Me ocorre com harmonia
Uma escala, umas notas
Agrupadas em sintonia
Nem Beethoven as faria
Vivaldi passaria lotado
Debussy mostraria enfado,
Satie interesse sutil
Tom, quem sabe, entoado
Mas Gershwin, como quem lia
As letras do irmão
Prestaria atenção.

Me ocorre essa melodia
Em piano silencioso
Em assobio ultrajante
Persistente, consentida,
E como bem me conheço
Logo será esquecida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Poesia




Eu tenho aqui dentro
Uma poesia engasgada
Vestida de linho fino
Refinado

Consigo ouvir
Um solfejo interior
De uma flauta doce

Consigo até ver
Os versos se formando
Consigo sentir o toque suave
Da tez de uma mulher branca

Mas esta poesia não sai
Não se derrama no papel
Não se faz alma
Estou morrendo de vontade
De poesia

Mas a poesia não emana na folha
Embora eu saiba que grita de amor
No meu silêncio interior.



-Radyr Gonçalves -

Afarrábios



ALFARRÁBIOS

Percebo uma ruptura que me duplica.

Mas sou feito de ferro e concreto,
fissuras não me comovem.
Já sou azul e amarelo,
preto no branco,
e uma velha testemunha do conformismo.

O sopro que fere meu rosto
é a prova da fragilidade desta armadura.

Redimo-me da canção subalterna a um desejo ocre.

E que não me faltem alfarrábios
para dizer da crueldade dos anjos,
que infernizam minhas noites
e visitam-me nas manhãs opacas,
pintando-as de tons pastel
feito palhas que incendeiam sutilezas
e espalham a fumaça:
Ardência dessa angustia nos meus olhos,

asas que se queimam em pleno vôo
sobre um chão que já não há.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Palavras perdidas...


Palavras escritas
sonhadas com amor
palavras perdidas
esquecidas na dor...


Foi um erro. Foi sim. Eu esqueci. Esqueci de dizer a tempo. Ah, se eu soubesse! Agora nem sei o que falar. As palavras que eu tanto imaginei se perderam. Deixei escapar. Em algum momento a ventania das emoções sequestrou as belas poesias que eu cheguei a fazer pra você. As prosas românticas que eu tinha rascunhado, com tanto amor e sentimento que nenhuma mulher jamais viu até hoje, sumiram.

Sim, foi naquele momento em que teve uma tempestade. Foi quando os dias nublados apareceram, enegrecendo o azul que bailava sobre nossas cabeças. Nunca pensei. Mas meu pouco senso de segurança fez com que eu os perdesse de vista. Ah! Quanta chuva de emoções caiu sobre nós! Tudo o que eu tinha reservado pra você, foi-se. Sumiu no vácuo, no doce escuro da tristeza; na fria noite da raiva; por entre a transparência de nossas ingenuidades.

As palavras que se perderam eram únicas. Não as consigo formular agora. Nunca foi tão difícil reconstituir, por meio de palavras, aquele romantismo que impregnava em cada atitude minha. Foi com certeza absoluta o azul do céu mais bonito que pude ver. Nunca tive sonhos tão penetrantes, nem desejos tão felizes.

As palavras que perdi retratavam a sua pele, todo o seu jeito de ser, sua beleza encantadora. Os versos que eu guardava refletiam sua naturalidade meiga, aquele olhar sem censura, cheios de doçura. Foi um pecado sim o que aconteceu. Eram palavras preciosas, falando de uma mulher também preciosa. Eram palavras de amor, eram sonetos com calor, melodias apaixonadas.

O que eu faço? Como encontrar palavras assim novamente? Não sei. Contudo, sei que as palavras que eu perdi foram o menor dos males. Diante daquela tempestade, perder você foi a pior...

Não me importaria em nunca mais achar essas palavras, se um dia reencontrasse novamente a sua mão. Nem mesmo lembraria o que elas representaram, se você voltasse para a minha vida, para o meu colo. A sua presença me proporcionaria tal felicidade, que novas palavras floresceriam, capazes de expressar o meu mais nobre e singelo sentimento por ti: amor!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ódio guardado

E ela ainda na janela, esperando o homem que não chega. Lua cheia azulando a rua vazia, briga de gato, uma ou duas janelas acesas – notívagos. De camisola, o vento frio da madrugada. No fim da rua o guarda do apito vindo cada vez mais perto. Fechou a janela, ligou a TV, um filme velho.

Não consegue dormir sem ele. Magra, dores de dente, o cabelo desgrenhado. Caipora, fuma o tempo todo. Sem ânimo, arrasta os pés descalços pela sala. Dia inteiro pintando as unhas do pé, batom nos lábios, penteando o cabelo. Noite, desfaz tudo. Nunca chega o homem. Quem sabe de madrugada?

Desliga a televisão e deambula pelos cômodos. Na pia a garrafa de cana, vazia desde ontem. Sem dinheiro pra comprar mais. No quarto, o menino dorme. Todo dia manda o desgraçado pra rua, “como parece com o pai, meu Deus, que eu fiz pra merecer?” Ele nem se mexe, baba no lençol enrolado embaixo da cabeça. Ela respira fundo, ódio guardado remoendo as entranhas, fazendo pouco dos ossos. Força pra não gritar. Caminha pelo vazio da casa, vai até o seu quarto, deita na cama e morde o travesseiro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

POBRE DIABO



Elisa matou o marido às duas. Isso é o que constava no processo. No depoimento ao delegado disse categoricamente: "foi o diabo". Acontece que o tal comissário de polícia era uma daquelas figuras ecumênicas, que vai aos terreiros, missas e cultos. Então decretou: "o diabo precisa se pronunciar". Expediu a intimação. O responsável pela entrega anunciou aos quatro cantos que precisava entregar a intimação ao demônio, mas não sabia onde encontrá-lo.
O diabo, sempre solícito, compareceu à delegacia aos saber dos burburinhos. Defendeu-se argutamente, disse que as acusações eram infames oriundas de uma mente doentia que pretendia tão-somente manchar sua reputação ilibada. Foi ao banco dos réus. Advogado de si mesmo. Recorreu a livros de Freud, Marx, Sartre, Descartes, Hobbes e Rousseau. Até a Augusto Cury. Estava difícil. Condenado à prisão perpétua por assassinar a sangue frio, com 17 facadas no peito, o cônjuge de Elisa.

Elisa vive bem com os filhos e o atual esposo, leiteiro há duas décadas da vizinhança. O Sujo cumpre pena em regime fechado. Desde então, sem o diabo para equilibrar as coisas, o mundo se tornou um caos.
Antonio Junior

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PASSEIO


PASSEIO


Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço


(Celso Mendes)

O Outro

Duvide, minha amiga, de quem diga que ando desgovernado, que vago pela madrugada paulistana com garotas de fama aquém de ilibada. Haverá um engano decerto, que de pronto nego. Quem apronta dessas, garanto, não sou eu, quase santo. É o meu alter-ego.

Onde já se viu tão vil injúria? Alguém dessa estatura, da linhagem mais pura, habituado a jantares de doze talheres, frequentar esses bares com essas mulheres? Pare. Ouça. Ainda paira, moça, o último eco do silvo da flauta. Não são minhas as faltas. E, rápido, conto: "é o sátiro". E pronto.

Acha possível que alguém como eu, um lorde, assim se porte? Perdido, sem norte? Em vez de vernissages, concertos, museus e quartetos de cordas, passar a noite nas rodas dos guetos, nos seus becos? Bobagem. Olha para trás, para baixo; vê as pegadas? Eu calço sapatos de cromo e, às vezes, coturnos. E esses rastros são dos cascos desse animal noturno, o fauno. Juro.

Isso não existe. Percebe? Um membro da elite não se envolve com a plebe. Nem se permite ser visto em qualquer inferninho de mau gosto.Isso é de mim, afinal, o oposto. Preste atenção, é importante. Isso só acontece quando me distraio por um instante e Pã aproveita e assume o volante.

domingo, 4 de outubro de 2009

Oração descrente

Descrente, oro
Não imploro
Nem me ajoelho
Em genuflexório inútil.

Oro com mãos postas nos bolsos
Braços cruzados
Olhares perdidos
Verbos desperdiçados,
Mas oro a meu jeito.

Não a um tirano que me criou
Para adorá-lo
Mas ao mundano rés do chão
Sem aura ou halo

Por que no pó é que reside a divindade
Na minha vontade e na fúria dos ignóbeis.

Minha esmola não é feita de moedas
Em mãos sujas

Creio em quem expulsa
Os vendilhões do templo
E sei onde é o templo.

Oro e me adentro humano
Não sob pano, mas despido
Minha oração não implica em pedido
É apenas o meu mero aprendizado.

E de tanto orar
Já não acredito em pecado.

Insonia e passaredo

Na hora em que escrevo
Pássaros não se manifestam
Apenas dormem
Como dormem meus sonhos
Enquanto estou em vigília

A vigiar sonhos outros
Dos que nada pude lograr
E ainda tem lugar
Esses devaneios tolos.

Na hora em que acordo
De sonhos meramente oníricos
Pássaros ainda não cantam
Meu sono é curto,
Meus sonhos terríveis

Na hora em que ouço pássaros
Não sonho, apenas vivo
De um sono real e bisonho
E na falta de outro
Dele me sirvo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Crônica de um fiel

Sabe, decidi aceitar Jesus, ir à Universal, ao Templo Maior da Cruz Cabugá. Depois que ela me abandonou fiquei dias e dias refletindo, acordado de madrugada, assistindo Fala Que Eu Te Escuto e tudo mais. Não me envergonho da minha fé, estava num momento de crise. É bom ouvir a voz dos pastores, eles têm persuasão, mantém você atento, as orações são muito confortadoras. Sim, estava decidido.

Óbvio que eu iria arrumado, camisa social, gravata vermelha, calça e sapatos pretos. Bem penteado, etc. Foi o que fiz. Me barbeei, induzi o vômito, bochechei Colgate Plax, derramei as garrafas de White Horse, Orloff, Pitú e Dreher na privada. Mantive as cartelas de Diazepam, ainda tenho insônia. Tirei uma Bíblia empoeirada do armário e fui, com fé.

Fiquei olhando pro cimento ainda mole no jardim. Seria melhor comprar umas flores, uma roseira, jasmins, flores cheirosas. Já estava bem plano, não demoraria para o pavimento novo secar.

Desci do ônibus no Parque 13 de Maio e fui andando pela Cabugá. Ia pegar o culto das 19:00. Me senti muito estranho andando com a Bíblia debaixo do braço. Até chegar ao Templo Maior, passei por quatro outras igrejas evangélicas, instaladas em prédios que claramente não foram feitos para serem igrejas. A Palavra prossegue.

O Templo é um prédio muito bonito, mas desisti de entrar. Há umas escadas até o portão de entrada, e assim que cheguei ao topo me deparei com dois parrudões parados na porta, gravata, camisa social, mesmo estilo que eu. Leões de chácara. Nunca entraria numa igreja que precisa de leões de chácara.

Cheguei em casa, noite, e consegui dormir. O fato de ter me dignado a aceitar uma fé me fez ficar tranquilo. Acho que ninguém irá descobrir, estou sob a proteção de Deus. Dias seguintes comprei flores, o jardim está cheiroso e colorido. Ela nunca mais vai me trair. Cimento e rosas me garantem.

Não vou à igreja, mas oro todos os dias. Madrugada. Colho uma rosa quando há. Ponho um copo d'água sobre a televisão. Acho que basta.

GORDO






















Manobro minha barriga
qual um carrinho de flores.
Como quem empurra diante de si
algo que não faz parte de seu corpo.
Fui magro e belo. Hoje, careca e gordo,
vou levando a vida e esta barriga,
em desconsolo.

A garota que amei aos dezesseis,
hoje casada e mãe de três,
se me encontrasse hoje em dia,
será que reconheceria,
por sob as camadas de gordura,
a fisionomia daquela criatura
que amou um dia às raias da loucura?
E se reconhecesse, o que diria?

Com seu jeito de menina
e sua fina cintura,
decerto diria apenas:
“Não faz drama, criatura!”

(Otelo Menezes)


Descubra quem é a escritora que usa o codinome Otelo Menezes e concorra a prêmio

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dose

O fogo cozinha e imola
A água sacia e afoga
A faca fatia e assassina
A bala adoça e enterra.

A terra te seiva e acolhe
Curare te mata e te cura
Até lapidar tem sentidos diversos
Em versos serás escultura
Em pedras seria tua morte.

Um beijo de Judas te acusa
Um beijo na testa te afaga
Amores, cuidados, carinhos
Afagos, cafunés, meneios
São sempre iguais esses meios
De acolher e de matar.

Segure na mão do amado
Na mão do guilhotinado
Oferte o cigarro ou o trago
Aos olhos vendados
Do ser a ser fuzilado.

Não é o que sempre parece
A mesma poção, mesma pose.

Me olhe nos olhos e diga
Que tudo é remédio e veneno.

A diferença é a dose.

Canibal

*
Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo.

Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente,
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo.

E errará duplamente se não a cozinhar bem,
mui bem cozida, antes de comê-la o cu.

(Só as Putas Acreditam em Príncipes Encantados.)

*

Conformidade

Recados emprestados
Seja quem os tenha dado
São fato inusitado, são mensagens sem parelha
E é nesta centelha, neste mote interrompido
Que finjo ter sentido a dor que deveras sinto.

Não brinco com meu sonho, esse é me é indecifrado
Meu lado mais maníaco, minha face mais tosca
Mira e acerta a mosca, o alvo só imaginado
Mostra o alvo certo, bem mais perto, bem mais turvo

E nesse tiro curvo, revelado pelos ventos
A flecha vai mais longe, bem além dos parcos tentos
De acerto ou de erro, nada disso faz sentido
Apenas o cumprido é medida razoável.

E o meu ser instável fica atônito esperando
O que o qual e o quando, fica meio indecifrável
Que espera a frase fácil, o minuto compreensível
Mas se isso não é possível
Me conformo com o fato.

domingo, 27 de setembro de 2009

Enquanto meu esqueleto dançava esparramendo-se no Chão

Dia desses percebi que estava vivo

assistindo minhas víceras brincarem

sonoramente dentro de mim

enquanto meu esqueleto dançava

esparramando-se no chão

O coração foi do peito à sola do pé

e na volta pela boca quis fugir

num grito, num choro,

(o que seja!)

numa gargalhada debochada

às vésperas do orgasmo

enquanto meu esqueleto dançava

esparramando-se no chão

Senti o cabelo que crescia,

Da pele, os pêlos, as unhas

Buscando espaço, pedaços de mim

por toda parte se retorciam

enquanto meu esqueleto dançava

esparramando-se no chão

Foi então que a respiração inflou o peito

o sangue ensopou a carne

uma gota de suor na testa resfriou a febre

e percebi que estava vivo

enquanto meu esqueleto dançava

esparramando-se no chão

S.G.

Sinopse do Am♥r Alheio

 Vivia ali, obscuro como os sonhos dos ciprestes, lenha, dentro da cabeça dela. Ela era dada à demência das horas que não passam, quando se está à espera. Eles eram oníricos, cada um a seu modo. Mas ele não sabia, não podia pressentir o amor, e do amor ela sabia.

Sabiam, entrementes, que pode haver dor e que o sangue existe em todas as coisas. Estavam entregues.

A vida conspirava, transpirando eventos marcados pelo circunstacial dos encontros improváveis. Ele, enraizado na cabeça dela, ela esperando que ele florescesse. Depois cansaram disso tudo e se vestiram de fogo. Duas centelhas, prestes a se extinguirem por si mesmas. A certa altura, antes do fim, ele quis e virou gás. Mas ela apagou-se primeiro e não pode querer também.

DA MINHA HONESTIDADE, DA SANTIDADE MASCULINA, DO AMOR....






Escruto meus sentimentos enquanto o chá esfria. Pondero sobre o amor e a morte de algumas manias que deixei pra trás. Como o amor muda um homem. Na minha mais pura honestidade, nunca acreditei, sinceramente, que pudesse amar, de fato. Mas o amor existe na espécie masculina. É coisa rara, meus caros, mas creia-me; tal milagre existe. Um homem amando é esquisito. Normalmente um homem quer tragar para a cama um mar de mulheres. Instintivo isso. Mas quando se ama uma mulher é como se só esta mulher existisse. O amor no homem é uma pérola. Amar é místico. No homem, amar é mais que isso. Amar chega ser um degrau na escada da santidade masculina. Sabe por que, meus caros? Por que homem quer mesmo é provar de todas as maçãs, mesmo sabendo que todas são iguais. Por isso, senhores, mereço ser canonizado: Estou amando.


-

Radyr Gonçalves

sábado, 26 de setembro de 2009

Urbano

À quadra onde ando
Falta um quando.
Calçadas, sempre mal tratadas
Me lembram de onde estou
E vou, por entre tropeços esperados
E chãos acidentais, não planejados.

As quadras onde ando são assim
São feiras livres, sem fim
São lixos e restos
Humanos e outros
São porcas, são vis, são dejetos.

Ao quarteirão desta terra
Onde a gente anda e erra
Falta um quê de civilidade
Falta às ruas uma unidade
Uma urbanidade,
Falta a cidade.

À quadra onde ando
E que não tem fim
Falta um pouco do louco
Que ainda, um pouco,
Vive em mim.

PRECISÃO




O vapor dos teus olhos

Aquece meu eu


Eu preciso de um chá de calmaria

Navegar na placidez

Do silêncio dos teus braços

Eu careço da flor

Da flor rosada dos teus seios


Da flor ígnea das terras em ti encobertas


Eu preciso da chama provocadora do teu vulcão

Da tua mão espalhando carícias

Das tuas pernas ao meu encontro


Eu preciso *desblusar teu busto

E me aninhar na paz rosa dos teus divinos seios.


*

Radyr Gonçalves

Carta a Marcus Gunn

Prezado Marcus Gunn

Acuso, com tristeza, o recebimento da síndrome que me enviaste. Choro a cada refeição a lágrima solitária, mecânica e sem vontade. É inevitável, Marcus, afinal, mastigar é preciso, chorar, vez por outra, contudo que no choro morem sentimentos. Certa vez um garçom inquiriu-me a respeito da lágrima periférica escorrendo pela face destra. Espante-se, Marcus. Pensava ele que a comida não me apetecia. Está ótima, disse fungando.
Conheces a obra de Nelson Rodrigues? Viste o filme onde uma colegial mata sete gatinhos? Certamente que não pois és estrangeiro, sabe-se lá de onde. Santo Google nada informa sobre suas origens. Pois bem, não há de conhecer o Bruxo Nelson, porém lhe informo, contrariado: não sou o demônio que chora por um olho só!


Cordialmente

Aquele que ainda não entregou os pontos

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sem Medida

O quanto isto dista
daquilo lá?
A distância da ânsia
do esperar.

O longe é perto quando é certo
o destino.
Mas perto demora na hora
do desatino.

Não é a escala que fala
a dimensão,
nem o metro dá ao certo
a medida.

É o que se sente de repente
na paixão,
e que se mede na lágrima
vertida...

Presque Vù


PRESQUE VÙ

Quando a mente exige
essa busca do olhar,
que se perde em paredes
ou se afunda na madeira da mesa,
transfixa matérias
e se esvai entre imagens e sons
ao tempo exato
em que passos morrem na sua nascente,
percorrem meu abismo mais frio
e pisam, descalços, nos mesmos cacos de sempre,
sangrando-me os pés,
é nesse momento que o movimento inexiste,
que desejo do teto meu chão,
que arranco minhas asas
e as devolvo ao demônio.

(Celso Mendes)

Conselhos para um Filho Hipotético

Todo o mundo sabe, filho,
Dos perigos dessa vida,
que depois de cada esquina
pode haver uma armadilha.

Há os perigos de assalto,
sequestro, enfarte, doença,
de estourar cartão de crédito
ou o cheque especial.
Da fumaça do cigarro,
Do excesso de açúcar, álcool,
sal, gordura e coisa e tal.
De sair pra dar uma volta,
pegar o caminho errado,
se perder numas quebradas
e sumir de vez do mapa.

Mas isso tudo é o de menos,
coisa boba, quase à toa,
que a gente tira de letra
e resolve numa boa.
Perigo, perigo mesmo
– moleque, presta atenção–
que deixa a gente maluco,
perdido, sem salvação
são as mulheres e suas curvas.
Dentre elas, as mais perigosas
são, sem sombra de dúvida, as ruivas.

Que merda!






















Ela era linda e eu a vi na ida,
Viu-me na volta e desviou o olhar.
Caralho! Era a mulher da minha vida!
Senti tremores e faltou-me o ar.

Fiquei à espreita, pois talvez voltasse,
Perdi o trem e nada, mas que merda!
Aos poucos, fui perdendo o prumo e a classe,
Já sem saber como lidar com a perda.

Ela era linda e eu a vi: gostosa!
Na minha mente então ficou gravada
A imagem dela, altiva e toda prosa.
Tesudo, o rebolar da minha amada.

Voltei à estação e, todo o dia,
Eu confundia outra mulher com ela.
A todo instante, meu querer a via
No andar da outra. Eu queria aquela.

Passou-se o tempo e, já sem esperança,
Continuei pegando o mesmo trem.
Tornei-me um bosta. Eu era uma criança,
Pedindo colo sem saber pra quem.


M. Brando

(Descubra quem é o M. Brando e concorra a um livro)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Não tenho um grande projeto

Não tenho um grande projeto. Escrevo apenas o que me parece correto, sem pretensões literárias. As motivações são várias: amigos, saudade, amores, pressa, indignação, temor. Sempre algum desses temas me leva a escrever poemas ou escrever simplesmente.

Temas são meras desculpas, um motivo esfarrapado, nem sempre bem disfarçado p’ra riscar letra após letra. Mas a sensação é sempre de saciedade.

Escrevo sobre a cidade, a estética, o parque, o pobre diabo das ruas, os demônios do poder, os anjos que vêm me ver e fazem a vida doce.

Acho que sou arquiteto ainda, mas, mesmo se não o fosse, seria bem vinda a idéia de um projeto. Não tenho nenhum de porte e, talvez por sorte, meus textos são pequenos, são menores, mas são os que tenho na hora.

Um dia irei embora, como já foram uns poucos. Não falo aqui da morte física, da finitude do corpo, mas do ir-se para longe, fora do alcance do papel e da caneta.

Vou deixar bem rabiscadas umas folhas quadriculadas com letra de forma constante.

Nada foi ganho ou perdido. Cada coisa registrada, cada momento vivido foi isso só: Um instante.

Bofes,

só pra avisar que por enquanto postam conforme suas vontades, ok?
tentem seguir os marcadores existentes, se não servirem me avisem!