com as tintas da infância
para pincelar os meus sonhos
meu desejo era pendurado
numa arvore para compor a fantasia
iluminado pelas estrelas
amanhecia concreto para minha alegria
porque natal
era tão simples e colorido
naqueles dias...
XIV
26/12/03
... nessa
... nessa
*
Coloquei a mochila nas costas e deixei o telefone tocando, eu que não atenderia aquela porra bem na hora do meu passeio.
Sete da noite. No quintal fiquei olhando pra rua, a poeira levantada no asfalto sujo. Debruçado no muro, qual namoradinha do século passado. A campainha continuava seu grito desesperado lá dentro de casa, por isso saí de vez. Ganhei a rua, um cachorro preto me seguiu, ficou me cheirando até eu resolver dar um chute nele.
Peguei um ônibus pro centro, fiquei olhando o movimento das ruas aos poucos ir diminuindo. Sete e meia.
Parei no Cais de Santa Rita, os bares vagabundos funcionando. Sentei numa mesa, pedi uma garrafa de carreteiro, uma porção de fígado de alemão, coloquei meus amigos (uma carteira de derby, um isqueiro e a minha mochila) em cima da mesa e fiquei olhando pra eles, ouvindo kelvis duran, que a dona do barzinho havia posto no devedê.
Enxugava a garrafa, as quenguinhas passavam, mil sorrisos vazios.
Sentar sozinho num bar de filhos da puta, fumar cigarros de merda e beber vinho ordinário. Esperava por Deus, que havia de me abençoar.
- Olá, disse uma mulher, sentando à minha mesa. Morena, olhos negros de cão, lábios vermelhos, uma cicatriz na sobrancelha esquerda, grandes peitos moles saindo de uma blusa preta, apertada.
- Olá, respondi sorrindo.
- Esperando alguém?
- Sim.
- Quer que vá embora?
- Não, fica, estou esperando alguém que não virá.
Pedi mais um copo à dona do bar.
- Ah, que eu quero um pouquinho de vinho também, ela disse.
Ficamos ali calados por um tempo. Eu olhava o cenário à minha volta, algumas pessoas dançavam ao ar livre. Do outro lado da grade, uns poucos otários esperavam ônibus no terminal do Cais.
- Você não fala muito né?
- Não.
- Vem dançar, ela disse, se levantando. Tinha uma bunda grande, realmente grande, a calça jeans apertada.
- Não, prefiro observar você, ofereci meu sorriso mais simpático.
Ela ficou lá, rebolando, olhando pra mim com a cara da puta que ela era. O brega. Chegou um cara e a abraçou. Ficaram se esfregando. Terminei a garrafa, o gosto doce na boca, levantei, aplaudi os dois, fui até a dona e paguei minha conta, depois voltei até a morena e coloquei dez reais no decote dela.
- Obrigado pela companhia.
Oito e trinta e cinco. Caminhei em direção à ponte Maurício de Nassau, estaquei num poste e dei uma mijada deliciosamente reconfortante.
Continuei pela ponte, parei na estátua do poeta Joaquim Cardozo, ele sempre saudando quem passa pelaquela merda. O rio era a coisa mais negra que podia existir nessa cidade àquela hora. Um cara jogava tarrafa, fiquei olhando ele trabalhar, acendi um cigarro.
Um mendigo parou do meu lado, ficou falando um monte de maluquice. Estávamos eu e Joaquim observando o outro cara pescar. O mendigo falava qualquer coisa, mostrando uma garrafa de fanta vazia pra mim. Puxei uma moeda do bolso. Cinquenta centavos, ele devia estar com sorte. Estendi pra ele e ele foi embora. Nove horas. Também segui meu rumo.
Fiquei zanzando pelo recife antigo. Dei uma parada no Burburinho, tava rolando um Queen no som.
Cerveja cara, posso pagar no cartão?
Gente bonita e descolada. Deus havia de me abençoar.
Um cabeludo passou pela minha mesa.
- Opa, ele disse.
- Opa.
Era poeta, me ofereceu seus livros.
- Porra, velho, poesia não. Poesia é perda de tempo.
Assentiu com a cabeça e foi embora. Que tipo de escritor era ele?
Metade da carteira de cigarro, eu que já devia estar ficando louco por passar horas e horas sozinho, olhando os outros fazerem diversão de suas vidas noite a dentro. Ninguém mais parou na minha mesa, graças a Deus.
Puxei o caderno da mochila, alto de uma garrafa de carreteiro e seis cervejas geladas, e tentei cometer uma poesia também. O céu era um lilás fino, de poucas nuvens, o velhinho garçom disse: – Vamos fechar já já. Quatro e meia. Nem tinha visto o tempo passar.
Não cometi poema nenhum, nem porra nenhuma. Era melhor assim.
Terminei de amanhecer meu dia no marco zero, vomitando no mar. Uma das cenas mais bonitas que alguém pode viver.
Depois de vomitar, senti finalmente o baque do álcool na cabeça. Precisava de uma cama.
Já era dia quando resolvi voltar pra casa. Caminhei de volta pro Cais, todos os mendigos estavam estendidos no chão. Os carros já começavam seu movimento. Outro dia de trabalho. Grande sorte a de todos os trabalhadores.
No Cais, do outro lado da grade. Mais um otário à espera do ônibus. A morena ainda dançava no bar, completamente bêbada. Tinha outro cara agarrado nela. Me viu, sorriu e acenou. Respondi. Gente fina ela.
O ônibus veio vazio, fiquei cochilando, pescando sono até chegar no meu bairro, com suas ruas amareladas e fedendo a merda, como todo subúrbio do Recife, abençoados sejam todos os subúrbios do Recife. Um cachorro ficou me cheirando até eu entrar pelo portão de casa.
Abri a porta, calma total, vontade de mijar de novo, um sono filho da puta. Voltei do banheiro, sentei no sofá, olhei pro teto e deitei. Noitezinha mixuruca. Já começava a dormir, o telefone se pôs a tocar. Puta que pariu. Cobri a cabeça com uma almofada e dormi tão profundamente que voltei a sonhar, coisa que não acontecia comigo já havia algum tempo.


1 – os motivos
Sempre haverá um rompimento
ou discussão envenenada.
Por um momento, bem sabemos,
motivo é o que menos há.
Sempre haverá uma dor de perda
que só se perdendo para esquecê-la.
E há, sempre há, motivo obscuro
nunca suposto, jamais revelado.
Sempre haverá demissão inesperada,
concepção indesejada, inoportuna,
surgida em hora ingrata pela mão de sujeito
sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.
(Nenhum que justifique ou que explique)
2 – a forma
É público, porém limpo –
outros verão o espetáculo,
não aqueles de apreço.
(Em casa, o sangue manchará
cortinas, desvalorizará o imóvel.)
É público, porém limpo –
outros verão o show, serão
aqueles que por um ou dois dias
deixarão de dormir,
beberão café em excesso,
terão um cigarro queimando os dedos.
Serão aqueles que esquecerão logo,
que comentarão via telefone,
especularão pela mãe – pobrezinha! –
e levarão o episódio às manicures.
É público, porém limpo.
Logo a ambulância fará o seu serviço
e a chuva ou as varredeiras, o seu.
(Em casa, o sangue entupirá
o ralo e excitará o cão.)
3 – o viaduto
a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.
Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.
b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.
Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.
E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.
4 – a rota
Nenhum semáforo que avermelhe
ou placa de trânsito que obrigue
(O sol
projetando a sombra)
Caminho pouco imaginativo
de paisagem em baixa resolução
(O vento
desmanchando o penteado)
5 – instante
Último pensamento
incapaz de
pela
dourando as
*



Eu tenho aqui dentro
Uma poesia engasgada
Vestida de linho fino
Refinado
Consigo ouvir
Um solfejo interior
De uma flauta doce
Consigo até ver
Os versos se formando
Consigo sentir o toque suave
Da tez de uma mulher branca
Mas esta poesia não sai
Não se derrama no papel
Não se faz alma
Estou morrendo de vontade
De poesia
Mas a poesia não emana na folha
Embora eu saiba que grita de amor
No meu silêncio interior.
-Radyr Gonçalves -


Palavras escritas
E ela ainda na janela, esperando o homem que não chega. Lua cheia azulando a rua vazia, briga de gato, uma ou duas janelas acesas – notívagos. De camisola, o vento frio da madrugada. No fim da rua o guarda do apito vindo cada vez mais perto. Fechou a janela, ligou a TV, um filme velho.
Não consegue dormir sem ele. Magra, dores de dente, o cabelo desgrenhado. Caipora, fuma o tempo todo. Sem ânimo, arrasta os pés descalços pela sala. Dia inteiro pintando as unhas do pé, batom nos lábios, penteando o cabelo. Noite, desfaz tudo. Nunca chega o homem. Quem sabe de madrugada?
Desliga a televisão e deambula pelos cômodos. Na pia a garrafa de cana, vazia desde ontem. Sem dinheiro pra comprar mais. No quarto, o menino dorme. Todo dia manda o desgraçado pra rua, “como parece com o pai, meu Deus, que eu fiz pra merecer?” Ele nem se mexe, baba no lençol enrolado embaixo da cabeça. Ela respira fundo, ódio guardado remoendo as entranhas, fazendo pouco dos ossos. Força pra não gritar. Caminha pelo vazio da casa, vai até o seu quarto, deita na cama e morde o travesseiro.


Dia desses percebi que estava vivo
assistindo minhas víceras brincarem
sonoramente dentro de mim
enquanto meu esqueleto dançava
esparramando-se no chão
O coração foi do peito à sola do pé
e na volta pela boca quis fugir
num grito, num choro,
(o que seja!)
numa gargalhada debochada
às vésperas do orgasmo
enquanto meu esqueleto dançava
esparramando-se no chão
Senti o cabelo que crescia,
Da pele, os pêlos, as unhas
Buscando espaço, pedaços de mim
por toda parte se retorciam
enquanto meu esqueleto dançava
esparramando-se no chão
Foi então que a respiração inflou o peito
o sangue ensopou a carne
uma gota de suor na testa resfriou a febre
e percebi que estava vivo
enquanto meu esqueleto dançava
esparramando-se no chão
Vivia ali, obscuro como os sonhos dos ciprestes, lenha, dentro da cabeça dela. Ela era dada à demência das horas que não passam, quando se está à espera. Eles eram oníricos, cada um a seu modo. Mas ele não sabia, não podia pressentir o amor, e do amor ela sabia. 

